Eco Parque Heliópolis

Tipo: Comércio; Institucional; Cidade; Social ; Bioclimática-Sustentabilidade.

Status: Construído; Em execução; Projeto

Ano: 2014

Localização: São Paulo, SP, Brasil

Cliente: A quem interessar

Área construída:  8 hectares

Arquitetura: Vitor Daher

Uma franja, in-significante e residual, de aproximadamente 8 hectares, delimita o território de Heliópolis de maneira clara atualmente. O esvaziado território torna-se a espacialidade que anseia tornar-se o espaço público de diálogo entre cidade formal e informal.

Terrain Vague. “Imensas áreas abandonadas coexistem com áreas de ocupação intensa e desordenada: desaparição da arquitetura.” (PEIXOTO, 1998, p.351). Ilhas no interior da cidade, esvaziadas de propósito e atividade, lugares que permanecem fora da dinâmica urbana, desprovidas de incorporação eficaz, embora parte integrante da cidade. Terrain – extensão de solo de limites precisos, urbano, edificável, e extensões maiores, quando tem também o sentido de área potencialmente aproveitável; Vague – possui o sentido de vazio, não ocupado e, também o de impreciso, indefinido, sem limites determinados Vazio, portanto, como ausência, mas também como promessa, como expectativa, como espaço do possível. “O terreno vago é o paradigma da metrópole contemporânea” (PEIXOTO, 1998, p. 351).

Áreas des-habitadas, in-seguras, im-produtivas. A essência da arquitetura é “transformar o vazio em edificado”. A arquitetura e o desenho urbano, ao confrontar-se com o terrain vague, intenciona, quase sempre, a reintegração à trama produtiva dos espaços urbanos da cidade eficiente, como se o destino da arquitetura fosse colonizar, impor funções. A atitude, frente ao espaço vazio, é portanto o estabelecimento de limites, a imposição de forma, de ordem e de programa, introduzindo no espaço estranho, elementos de identidade necessários para torna-lo reconhecível.

Aproximação ao território. Um parque contemporâneo. Híbrido, multifacetado e singular à sua localidade.
Mas antes de tudo um parque. Um vazio capaz de convidar e colocar em contato realidades contrastantes. O espaço de encontro para os habitantes das cidades formais e informais.
Tem em sua composição a vocação de tornar-se infraestrutura, tão carente às favelas. Sua descrição abstrata é a de um lugar de encontro de dimensão urbana, que tem incorporada uma ética similar à defendida por Kristina Hill:

“(..)todo lugar deve ter seus próprios rins”.

Uma espacialidade que busca identificar as principais problemáticas individuais de Heliópolis e transformá-las em potencialidades sendo o próprio parque o suporte e o filtro para essa mudança. Além de resolver os problemas na raiz, o seu conteúdo prevê benefícios auxiliares que emergem a partir do processo de controle e administração de todos os fluxos inerentes à este território. Desta maneira o Eco Parque Heliópolis pode servir como catalisador para estimular outros setores da economia local e, simultaneamente, servir como uma espacialidade referência, onde os paulistas e outros turistas possam passear nos finais de semana para aproveitar uma refeição, comprar flores, conversar com um desconhecido e até aprender algo novo.

Ao invés de um quintal bagunçado, O EPH é a nova cara de Heliópolis, um dos poucos bairros na área metropolitana de São Paulo: que possui uma relação íntima com a educação, o ócio, a água e outras formas da natureza. Um território que reconhece essas importâncias e portanto apoia sua proteção e desenvolvimento.

4.3.1 Paisagem.
O maior e mais importante parque da cidade de São Paulo é um dos principais destinos dos moradores de Heliópolis e Ipiranga à procura de lazer.
As pessoas nessas favelas têm de atravessar 10 km até o Parque Ibirapuera, em São Paulo, demorando aproximadamente 1h para chegar de Metro até a Estação Brigadeiro e depois descer a pé a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, caminho mais curto para desfrutar das áreas verdes para recreação do parque.
Ironicamente, há o potencial não só para um espaço aberto justo ao lado de Heliópolis, mas para um Parque com alta expressividade local.

BENEFÍCIOS DA VEGETAÇÃO E DOS PARQUES NA CIDADE. Significantes copas de arvores atendem a um número de funções vitais em uma cidade: controlar a temperatura através da sombra e evapotranspiração; absorver poluição do ar e sequestrar o carbono; reduzir o escoamento superficial e contribuir para a beleza paisagística e para o relacionamento que as pessoas possuem com ela.
Tanto as cidades formais quanto os assentamentos informais urbanos podem se beneficiar dos efeitos da arborização urbana. Ambientalmente, aperfeiçoar a favela com as melhorias infraestruturais propostas é muito mais simples que as abordagens tradicionais de engenharia. Mais importante, a comunidade de Heliópolis pode ser reconhecida como uma presença positiva na margem cénica da estação de tratamento da Sabesp e como importante colaboradora e protetora para a saúde da cidade de São Paulo.

4.3.2 Mobilidade
Articular os territórios através do parque, incentivando a mobilidade alternativa através de calçadões voltados para o fluxo dos pedestres e as bicicletas. Assim como foi falado anteriormente: “A arquitetura e o desenho urbano, ao confrontar-se com o terrain vague, intenciona, quase sempre, a reintegração à trama produtiva dos espaços urbanos da cidade eficiente, como se o destino da arquitetura fosse colonizar, impor funções.”. Ao conectar a frontalidade Leste de Heliópolis com os edificios “redondinhos” de Ruy Ohtake (e uma futura estação de metrô) e a Av. Almirante Delamare, próximo ao ponto mais utilizado para dispersão através de ônibus, o EPH adquire uma posição de centralidade, superando o caráter de borda desocupada e adquirindo o papel de centralidade articuladora para a região. Forma e Função. Tratando-se de um território com declive íngreme em direção ao reservatório, foram criados 3 calçadões seguindo uma única curva de nível, a fim de criar um ambiente para caminhada. Os calçadões estão na cota 22.00m (Heliópolis), 7.00m (Cota de articulação entre parte mais ingrime e menos ingrime do parque) e 0.00m (Estação de Tratamento e nova linha de onibus proposta) tendo 10m, 7m e 25m respectivamente. A premissa de desenho destes calçadões parte da premissa de que deve haver sempre um lugar para se sentar, árvores ou estruturas para dar sombra, um elemento adaptável para recreação e iluminação noturna. Os calçadões da cota 22.00 funcionam como uma ampliação do espaço social das pequenas lojas que serão criadas ao longo de sua extensão de 800m, ao mesmo tempo que funcionam como um valo de drenagem linear que irá coletar as águas pluviais direcionadas através das ruas de aproximadamente 50% da superficie da favela coletatando as aguas, diminuindo sua velocidade e estimulando sua infiltração nos sistemas paisagisticos de filtragem de sedimentos. A fusão do espaço público urbano com o desempenho ecológico através da rua verde e do sistema de terraços paisagisticos de drenagem irá acrescentar uma camada de riqueza às comunidades de Heliópolis, Ipiranga e até São Caetano do Sul . Socialmente, a estrutura criada através desse sistema pode ser modificada e adaptada com facilidade para satisfazer as necessidades da comunidade.

4.3.3 Vegetação e Agricultura.
Um paisagismo alinhado com a produtividade. A relação entre a agricultura e a paisagem é um dos principais temas de Enric Batlle em “El jardin de la Metropoli”. Neste livro a idéia de apropriação e mutualidade entre terra e homem provém da dominação sobre o território e a instantanea relação afetiva criada. O conflito entre a paisagem natural, pitoresca e hortícula e a paisagem criada, controlada e produtiva começa a aparecer em diversos signos intrínsicos ao campo e à agricultura. Jacques Simon a partir de 1960 ilustra essa relação de território tocado, alterado com ironia através de intervenções artisticas, land-art. Buscando que “o belo seja poderoso” (BATLLE, 2011), grande parte da paleta vegetal a ser escolhida deverá ser, em sua maioria, consumível ou produtiva. Paisagismo e padrões criados através da plantação de frutíferas, hortalíças, legumes e outras espécies como as palmeiras (e sua produção de coco) além de vegetação com aromas e passaros atraídos devem dominar os espaços de ócio do parque, protegendo e tornando belo esses espaços de encontro. Devido à topografia íngrime, a terra torna-se uma nova superfície sobre a qual a atual linguagem cultural da agricultura urbana em platôs é cultivada. A agricultura cultiva a terra até que a favela seja capaz de desenvolvê-la, momento em que se pode recuar em uma dança de coreografia flexível, na ponta dos pés, permitindo que a urbanidade e a auto-gestão tome conta do parque.

4.3.4 Água.
Antes de explicar o papel do manejo daas águas no projeto será apresentada de maneira suscinta a importância das águas no sistema urbano de São Paulo através da interconexão de 6 informações:
1_ O Brasil possui a maior disponibilidade hídrica do planeta, ou seja, 13,8 do deflúvio mundial. Fonte INMET.
2_ São Paulo, conhecida como a “Terra da Garoa” têm registrado em 2009, precipitação da ordem de 1.486mm Fonte: INMET
3_ O preço médio da água encanada no mundo é de US$ 1,80 por m³.
4_ O preço médio da água encanada no Brasil é de US$ 1,35 por m³.
5_ Assim como no livro “Green Metropolis”, o valor da água potável no Brasil é mais alto ou similar ao do combustível.

“Crude oil, at the time, was selling for less than twenty-five cents a gallon, so making an argument in opposition was futile. Even today, petroleum products are still amazingly inexpensive, compared with other manufactured fluids. The next time you fill your tank, go into the convenience store at the gas station and try to find liquids on the shelves wich are priced lower than the gasoline you just pumped into your car. Not the coffee. Not the soft drinks. Not the mouthwash or the shampoo. Not the bottled water.” OWEN, David. Green Metropolis: Why living smaller, living closer and driving less are the Keys to the sustainability.United Kingdon. Penguin UK, 2010.

6_ Parte substancial do valor agregado à distribuição de água nas cidades é relativo à perda que ocorre no transporte da água entre a fonte (no caso do Brasil, os reservatórios periféricos às cidades.) até o ponto de sua utilização. Fonte: SABESP.
Combinando essas afirmações, é possível perceber o potencial econômico adormecido do Brasil que pode ser revertido com uma atuação urbanística voltada para a valorização dos recursos hídricos superando a postura de abandono que vigora nas intervenções urbanas desde o séc. XIX até a atualidade.
Essa nova postura pode se encaixar perfeitamente dentro da teoria presente no livro “a cidade do pensamento único” respondendo na forma de 3ᵃ geração urbanística preocupada em tornar a cidade competitiva econômicamente atuando como uma máquina de produzir riqueza. (ARANTES, Otília Beatriz Fiori; VAINER, Carlos; MARICATO, Ermínia. A CIDADE DO PENSAMENTO ÚNICO. Desmanchando Consensos. Coleção Zero À Esquerda, Vozes, Petrópolis; 1ª Edição, 2000.
) Conversa e complementa também a teoria “vazios de água” do escritório mmbb, na qual foi percebido o potencial urbanístico das rede infra-estruturais, buscando conectar o que já está estabelecido e funciona, redefinindo o poder da infra-estrutura. (MILTON liebentritt de almeida braga, 2006).
Finalizando, a teoria e o projeto seguinte abrem os olhos à situação atual indicando uma solução para a falta de espaços públicos na atual São Paulo globalizada. A percepção da conexão possível entre o sistema hídrico com áreas verdes e públicas deve ser levado adiante, resultando em possibilidades infinitas de uso da água e do tecido urbano. (arquitexto 106.01: os córregos ocultos e a rede de espaços públicos urbanos ; BARTALINI, Vladimir )

Praia Urbana
O projeto reconhece a importância da infraestrutura para acomodar a agua proveniente da chuva de Heliópolis. Não apenas é necessário tratar adequadamente o escoamento superficial por motivos ambientais, mais importante ainda é desmistificar a crença de que as favelas são a fonte de poluição. Além disso, o projeto alia a necessidade pública de equipamentos comunitários e recreação a essa infraestrutura de drenagem. Ambas as funções existem em uma relação simbiótica, uma reforçando a importância da outra.
O destino final da água que passa pelos Biofiltros são dois grandes tanques que funcionam como piscinas públicas.
A cultura de praia é muito importante no Brasil, a praia servindo como um espaço democrático de reunião. No entanto, São Paulo tem muito pouco acesso a ela. Dentro de Heliópolis, atualmente, o único lugar seguro oferecido para se nadar são as piscinas do CEU próximo aos redondinhos de Ruy Ohtake.
Ironizando a relação atual de afastamento às infraestruturas, os 2 tanques tem a mesma geometria marcante dos tanques de depuração, porém oferecem à população a possibilidade de tornar-se capaz de manter a agua limpa e saudável. Isto beneficiara a comunidade local como um todo, criando um contexto de orgulho de sua capacidade de manter a água limpa, além de proporcionar o tão desejado conforto de uma praia.

4.3.5 Ecoponto.
Como o que ocorria com a gestão das águas, o projeto é uma tentativa de manejar os resíduos produzidos nas favelas e reintegrá-los ao tecido social, econômico e paisagístico da cidade.
Os escombros e os resíduos orgânicos gerados em Heliópolis diariamente devido à sua auto-construção de baixa tecnologia se tornam um gerador para a linguagem paisagística a ser estabelecida.
Uma fabrica de reciclagem de entulho poderia captar e converter o material orgânico e entulho de construção recolhidos tanto de Heliópolis como de toda a região (o ecoponto mais próximo se encontra a 5km, na Avenida do Estado.) transformando-os em agregados moídos. Usa-los em artefatos de cimento e compostagem que suportariam o crescimento do parque e seu paisagismo é uma opção. O mais interessante porém é que estes agregados podem compor uma infinidade de peças pré-fabricadas caso exista o diálogo entre a fábrica de reciclagem e um motor de inovação cientifica, neste caso o centro educativo situado no centro do parque.
Assim os escombros que atualmente são uma das principais problemática se torna matéria prima para o desenvolvimento de inovação cientifica, principal motor de desenvolvimento de um território atualmente no mundo globalizado.
Através da educação, os escombros processados podem ser utilizados em sistemas construtivos racionalizados e eficientes, podendo compor a construção das novas moradias no cerne de Heliópolis ou ser exportado como produto para qualquer consumidor. Através do entulho gerado devido à baixa tecnologia de construção se constrói um futuro para Heliópolis.

Apresentações:
– Em eventos da Cultura Empreendedora na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na PUC-SP. https://www.facebook.com/culturaempreendedora/
– Pitchgov 2015 http://www.pitchgov.sp.gov.br/
– Escola de Negócios Sebrae SP http://www.escolasebraesp.com.br/

– Publicações:
Exposição Infinito Vão – Casa da arquitetura – Matosinhos, Portugal. 2019

 

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