Centro Universitário Flexivel

Tipo: Institucional; Cidade; Design; Social ; Bioclimática-Sustentabilidade.

Status: Projeto

Tipo: Projeto Urbano, Equipamento Público

Ano: 2014

Localização: São Paulo, SP, Brasil

Cliente: Universidade Mackenzie

Área construída: 5.000m²

Arquitetura: Vitor Daher

Centro Educativo Flexível

Apropriando-se da teoria de desenvolvimento econômico contemporâneo defendida por Richard Florida (2009), o principal motor da atualidade está baseado na capacidade de cada território em desenvolver inovação científica. Para este e outros autores, a inovação diverge do conceito de invenção porque é resultado da combinação de dois fatores aparentemente desconexos que, quando combinados, geram um produto não existente anteriormente.

Dentre programas diversos, como cinema, auditório, escola de música, tratamento de águas integrado ao paisagismo, produção e reciclagem de entulho, todos presentes no EPH, o objeto a ser detalhado arquitetonicamente é um Centro Educativo Flexível (CEF).

Sua escolha como sujeito de detalhamento está baseada na crença de que a troca de conhecimentos sob uma espacialidade ímpar é provavelmente o mais importante motor para a uma maior igualdade ente distintos estratos sociais.

[…] no es necesario imponentes edificios para dar buena educación
a los niños, sobre todo en zonas de clima suave. Se sabe que
en el pasado, filósofos y santos acostumbraban sentarse con sus
discípulos a la sombra de un mango, consiguiendo transmitirles
su sabiduría sin necesidad de edificaciones de hormigón armado.
Pero eran grandes hombres y grandes espíritus que sabían aprovechar
el universo entero como material didáctico junto a los
simples recursos de su inteligencia y su fantasía.
(Neutra, 1948: 41 y 42.)

O CEF, inserido propositalmente no centro do parque, provoca o território já aquecido pelas diversas intervenções.
É o facilitador de mudanças, o elemento amigo, mas ainda estranho, que convida a todos a desfrutá-lo. Uma atitude de convite à cidade feito por Heliópolis através de um equipamento não-exclusivo dos habitantes da favela. Declarada sua significação, chega o momento da arquitetura expor os conceitos com clareza.

Implantado em um terreno de topografia difícil, o projeto vence os 22m de desnível (0,00m ETE Sabesp; 7,00m cota de circulação longitudinal do parque; 22,00m limite de Heliópolis.) assumindo três diferentes cotas e ajustando o programa:
Entre a cota 0,00m e a 7,00m se localizam os programas entendidos como programas de resistência: o grêmio de alunos, uma área dedicada a suportar espacialmente todo tipo de feiras, expositivas ou não, um acesso pelo palco da arquibancada pública e, no outro bloco, uma cozinha experimental aberta à população dedicada à aulas e eventos, e quando desprovida dessas atividades, local de encontro e produção gastronômica dos alunos da universidade.

“É esse compromisso que pode colocar o improvável dentro doprovável.
Penso uma Universidade aberta às novas formas organizacionais
e constituintes da sociedade:
ONG’s, sindicatos, movimentos, associações, centros comunitários…,
fazendo dessas forças a nossa resistência efetiva.
Uma contraofensiva inventiva a todas as tentativas de acabar com a soberania e autonomia da Universidade. As forças da globalização, do neoliberalismo, da sociedade produtivista
vêm da competividade, do privado em detrimento do público, do individual em detrimento do coletivo, do egoísmo em detrimento do coleguismo.”
(FUÃO, Fernando Freitas. A Universidade incondicional. Arquitextos,
São Paulo, ano 07, n.073.06, Vitruvius, jun. 2006.)

Na cota 07,00m se articula a grande praça coberta, quase desprogramada, concebida como extensão da circulação longitudinal do EPH. O pavimento onde os limites entre Heliópolis, o parque e a universidade se diluem e “Somente o impossível pode acontecer”. (DERRIDA, Jacques. A Universidade sem condição. São Paulo, Estação Liberdade, 2001.)
Projetado como uma grande laje, de dimensões excessivas, comprime o expectador que acessa o edifício, tanto pelo palco da arquibancada pública acessado pela penumbra da cota inferior, penetrando através de um pequeno rasgo entre espessas paredes de concreto, como pelo corredor externo sob laje pré-fabricada que sustenta a sala dos professores (aqueles que professam) liberando pouco pé-direito, criando, através do conflito espacial, a sensação de surpresa ao acessar a grande praça coberta dotada de pé-direito quádruplo. O espaço, de acesso livre e impossível de ser fechado, atua de forma semelhante ao Salão Caramelo da FAU projetado pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas. Seu dimensionamento excessivo supera as medidas funcionais, libertando significados e tornando-se capaz de abrigar o “outro”, desdobrando-se transitoriamente e ameaçando assim a previsibilidade desse espaço. Além disso, seu superdimensionamento é um dos únicos aspectos desenvolvidos quase exclusivamente
aos moradores de Heliópolis que não contam com um local de encontro e debate coberto com grande desenvolvimento de superfície.
Trechos baseados em: GUATELLI, Igor. Arquitetura dos entre-lugares. Sobre a importância do trabalho conceitual. São Paulo, Senac São Paulo, 2012.

A Universidade deveria ser o lugar onde se dão os encontros, as conversas, as filosofias. Mas, infelizmente, o espaço da Universidade permanece ainda próximo do confessionário e da sala do
psicólogo, onde se diz tudo reservadamente, entre quatro paredes.
Ela está longe de ser um lugar público, está fechada, e cada vez é menos representativa da sociedade.
Hoje o problema que se apresenta é como desconstruir suas muralhas, sua “arquitetura”, desmontar suas defesas para a entradado “outro”, do totalmente diferente.
Uma Universidade que abre suas portas uma ou duas vezes ao
ano, lamentavelmente, só pode atestar sua clausura, seu cerramento,
sua condição de campo, de campo de concentração.
Não é cerrando-se que resistirá, mas sim deixando que essas
fissuras se espalhem e comprometam os muros, e a própria estrutura,
permitindo, assim, a passagem de quem realmente deseja
entrar e nunca teve a possibilidade.
Penso numa Universidade sem portas, sem janelas, aberta à
cidade. “UniverCidade”.
(FUÃO, Fernando, 2006.)

O desenvolvimento vertical da universidade a partir da cota 07,00m até a cota 22,00m abriga um programa “comum” a outras universidades: sala de professores e coordenação, ateliers, salas de aula e laboratórios de diversas dimensões.
Enquanto a porção localizada acima da praça abriga, em seus dois pavimentos, os dois primeiros itens citados (totalmente abertos e comunicados com o pé direito quádruplo da praça), as salas de aulas e laboratórios são acessadas através de passarelas transversais à circulação do parque, ocupando, de maneira porosa, a outra porção do terreno, respeitando-o através da decisão de não produzir cortes ou aterros.
O programa, dessa forma, repete a maneira complexa de ocupação informal em terrenos com pendente, comum no imaginário relacionado às favelas, buscando pela poética indicar um novo caminho onde o terreno e os vazios são respeitados e valorizados no momento da construção. A porosidade alcançada permite que o parque se desdobre verticalmente, permitindo que a vegetação cresça e ocupe os espaços deixados entre os diferentes módulos pré-fabricados de sala de aula e apoio. Dessa maneira o contato do aluno com a natureza é potencializado, tornando o ensino mais espontâneo.

“Para Froebel, el espacio exterior era un facilitador del aprendizaje,
pues posibilitaba la realización de diversas actividades
en un ambiente de espontaneidad, pues permite el desarrollo de
actividades variadas y espontáneas. Montessori consideraba que
había que favorecer, a través de los espacios externos, el contacto
del niño con la naturaleza.”
(Ramírez Potes, Francisco, “Arquitectura y pedagogía en el
desarrollo de la arquitectura moderna”, Revista Educación y
Pedagogía, Medellín, Universidad de Antioquia, Facultad de
Educación, vol. 21, núm. 54, mayo-agosto,2009, pp. 29-65.)

A necessidade de tornar a parte exposta da universidade pré-fabricada deriva da intenção de fazer com que esta sirva como exemplo de construção futura e inteligente aos visitantes do parque e da universidade, sendo eles moradores de territórios informais ou formais. A pré-fabricação induziu à adoção de dois sistemas estruturais independentes, um de abrigo ao programa de ensino e outro à circulação. Dessa maneira, as salas seguem a ideia do “claustro” clássico, potencializando a concentração dos alunos e a introspecção. Por outro lado as circulações e os vazios liberados à apropriação da vegetação do parque rompem com essa rigidez, pouco interessante ao convívio extraclasse, criando mirantes e varandas exteriores que alargam o corredor e convidam os alunos a ocupá-los, enquanto os lembram de seu contexto atual, das problemáticas e das oportunidades existentes no entorno que os cerca e, principalmente, do seu papel de agente consciente.

O que acontece quando não se mostra aos estudantes a triste
realidade que se espalha nas ruas e esquinas da miséria? O que
acontece quando tudo o que resta é observar sempre o mesmo?
(FUÃO, Fernando, 2006.)
“A gente faz faculdade para “vencer na
vida”, mas hoje mais ninguém vence só
por isso.
Deveríamos pensar, agora, que a gente
faz faculdade para “ser” na vida, aprender
a ser… Há sinais por todos os lados da
resistência; basta abrir os olhos.”
FUÃO, Fernando, 2006.

Apresentações:
– Em eventos da Cultura Empreendedora na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na PUC-SP. https://www.facebook.com/culturaempreendedora/
– Pitchgov 2015 http://www.pitchgov.sp.gov.br/
– Escola de Negócios Sebrae SP http://www.escolasebraesp.com.br/

– Publicações:
Exposição Infinito Vão – Casa da arquitetura – Matosinhos, Portugal. 2019

 

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